Alison dos Santos, o atleta que superou suas cicatrizes
Quando Alison dos Santos, que nesta quinta-feira (27) pulverizou, em Zurique, o recorde mundial dos 400 metros com barreiras (45,80s), surgiu no atletismo antes mesmo de completar 20 anos, o público achava que ele era mais velho. O motivo: cicatrizes muito visíveis na cabeça.
No início, muitos confundiram as marcas com um caso de alopecia precoce. Por isso, sua juventude surpreendia a todos, até que sua história se tornou conhecida: com apenas dez meses de vida, um acidente doméstico envolvendo óleo fervente o deixou hospitalizado por meses.
Nascido em São Joaquim da Barra, a pouco mais de 300 km de São Paulo, Alison cresceu com seus pais, Sueli e Gérson, mas também passava muito tempo na casa de sua avó Geli, onde ocorreu o acidente que mudou sua vida.
Geli estava fervendo óleo para fritar peixe quando um momento de descuido permitiu que o pequeno Alison agarrasse a frigideira.
A avó, na tentativa de protegê-lo, também ficou ferida. Os dois ficaram hospitalizados durante vários meses.
Ele foi internado no hospital de Barretos, onde comemorou seu primeiro aniversário.
Na infância, as sequelas do acidente - cicatrizes muito visíveis na cabeça e falhas no couro cabeludo - lhe causaram problemas de timidez extrema e até mesmo episódios de bullying na escola.
Ele era visto quase sempre usando um boné amarelo e encontrou refúgio no judô, praticado em um centro esportivo local onde se sentia protegido.
"Eu adorava aquilo, de verdade. Mas minha família não é rica, então era difícil", contou ele, tempos depois, ao site da World Athletics, explicando que a prática do judô gerava custos para seus pais.
- Novos amigos -
Como solução alternativa e com a ajuda de um amigo, Alexandre Inocêncio, o atletismo surgiu em sua vida, o que o ajudou a se expor mais e a ser mais sociável.
"Aquele ambiente, a amizade e o amor que encontrei na comunidade do atletismo foram o que me ajudou a superar tudo. Acho que isso me salvou", avaliou recentemente o próprio Piu, como é chamado, no podcast "Ready, Set, Go".
Os frutos não demoraram a aparecer, e os resultados logo se mostraram promissores.
No Mundial Sub-18 de 2017, no Quênia, ele ficou em quinto lugar nos 400 metros com barreiras e, um ano depois, no Mundial Sub-20 na Finlândia, conquistou a medalha de bronze.
No Mundial de atletismo de Doha, ele já foi finalista dessa prova exigente e, após a pausa nas competições devido à pandemia, surgiu como um nome indispensável nos rankings e nas listas de favoritos.
Nos Jogos de Tóquio, conquistou o bronze com um tempo impressionante de 46s72, aos 21 anos, em uma prova histórica na qual o norueguês Karsten Warholm quebrou o recorde mundial (45s94), marca que vigorou até esta quinta-feira.
Alison teve 2022 como o ano de sua afirmação, vencendo o circuito da Diamond League e, sobretudo, sagrando-se campeão mundial (46s29) em Eugene, nos Estados Unidos.
- "Mais brasileiro" -
Mas uma lesão durante os treinos em São Paulo mudou o rumo das coisas no início de 2023 e acabou tirando Alison do trono, já que precisou passar por uma cirurgia para tratar o menisco lateral do joelho direito.
O ano de 2024 marcou seu retorno ao topo, com um novo bronze olímpico, desta vez em Paris, e, em 2025, ele conquistou a prata no Mundial de Tóquio, em uma prova na qual chegou a ser ouro por alguns instantes, antes de o americano Rai Benjamin ser reclassificado.
O ano de 2026 foi o de sua afirmação definitiva, caso alguém ainda tivesse dúvidas.
Na melhor forma física de sua vida, ele vem acumulando vitórias sobre Warholm na Liga de Diamante.
No último domingo, em Chorzow (Polônia), surpreendeu o mundo ao vencer o norueguês exibindo um novo visual, com o cabelo mais longo.
"Estou ficando mais velho e quero experimentar coisas diferentes", disse após a prova, destacando seu objetivo: "Mostrar mais o meu lado brasileiro e fazer com que as pessoas se divirtam".
Apenas alguns dias depois, ele chegou a Zurique com o cabelo trançado e conseguiu divertir o público da melhor maneira possível: com um recorde mundial impressionante (45s80).
K.R.Jones--EWJ