Sob pressão, Macron admite 'falhas' na gestão policial dos distúrbios na França
O presidente francês, Emmanuel Macron, admitiu nesta segunda-feira (19) "falhas" na gestão policial dos distúrbios que explodiram no fim de semana na França, um dia após seu discurso exibido na televisão, no qual pediu firmeza, não ter reduzido as críticas.
Uma grande manifestação convocada no sábado contra o elevado custo de vida terminou em distúrbios e saques nas principais cidades da França, onde foram registradas cenas de caos que deram a volta ao mundo.
Centenas de lojas saqueadas, a prefeitura de Limoges incendiada e a sede da prefeitura de Marselha danificada, carros queimados, confrontos entre manifestantes e as forças de segurança: as autoridades descreveram um caos "sem precedentes", que prosseguiu durante a noite de domingo.
A seis meses da eleição presidencial, na qual Macron não poderá ser candidato, as cenas do fim de semana deixaram o governo contra a parede, acusado de não ter antecipado o risco de distúrbios, nem de responder às reivindicações dos manifestantes.
"O poder desertou por completo", criticou o presidente do partido de ultradireita Reagrupamento Nacional (RN), Jordan Bardella, cuja candidata à presidência, Marine Le Pen, lidera as pesquisas.
"Se há vândalos é porque há movimentos sociais e porque existe uma forma de degradação do movimento social, que é organizada pelo governo", lamentou o prefeito de Paris, o socialista Emmanuel Grégoire.
O movimento dos coletes amarelos, por trás da mobilização de 17 de outubro, anunciou novos protestos para o próximo sábado.
- "Falhas" -
O presidente de centro-direita reconheceu "falhas na antecipação e na inteligência" que resultaram nos recentes distúrbios, mas rejeitou o pedido de demissão do ministro do Interior, Laurent Nuñez.
Macron ordenou a Nuñez que implemente "o mais rápido possível novos modos operacionais" para que a polícia possa "acabar com os fenômenos de barricadas e saques", acrescentou a presidência.
O ministro do Interior reconheceu a perda de controle da polícia em "algumas cidades" durante os protestos, que resultaram em mais de 2.500 detenções e quase 1.000 integrantes das forças de segurança feridos.
O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, apresentou um 'mea culpa' ao reconhecer que as autoridades "falharam indiscutivelmente". Ele atribuiu os protestos à "extrema esquerda", que considera uma "ameaça" para o país.
As autoridades proibiram nesta segunda-feira "concentrações e manifestações" em Marselha, a segunda maior cidade da França e onde, segundo a prefeitura, foram registrados até 30.000 saqueadores.
Em um aguardado discurso exibido na televisão durante a noite de domingo, assistido por 16,7 milhões de telespectadores, Macron reiterou sua firmeza contra os vândalos, que segundo ele "pagarão" e "responderão" por seus atos.
Mas ele não fez nenhum anúncio para amenizar o mal-estar social dos entre 550.000 e 800.000 manifestantes que protestaram contra o aumento do custo de vida ou para exigir mais recursos para a educação, embora tenha pedido que eles não sejam confundidos com os responsáveis pelos distúrbios.
O mandatário manteve, no entanto, a viagem que estava programada nesta segunda-feira para o Oriente Médio, com o objetivo de assegurar volumes de petróleo e diesel para baixar os preços no país.
A situação continua tensa e vários manifestantes bloquearam nesta segunda-feira o acesso ao Louvre, em apoio ao movimento estudantil e para denunciar "a repressão policial", informaram à AFP dois sindicatos e a direção do museu mais visitado do mundo.
- Tensão na Bolsa -
Nos últimos meses turbulentos de sua presidência, Emmanuel Macron e seu governo também enfrentam uma pressão no cenário internacional, provocada pelo nível elevado da dívida, ao qual se somam agora os distúrbios e saques na França.
A Bolsa de Paris operava em queda de 1,23% nesta segunda-feira, com os temores sobre a dívida no momento em que o governo, em minoria, tenta aprovar no Parlamento um orçamento para 2027 que prevê um forte ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (60,7 bilhões de dólares, 306 bilhões de reais).
A violência "não vai ajudar a comunidade internacional a sentir-se plenamente à vontade para comprar" os títulos do Estado francês, advertiram analistas do Deutsche Bank.
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N.M.Shaw--EWJ